Paul Krugman
Dez anos atrás,
a América invadiu o Iraque; de alguma maneira, nossa classe política decidiu
que nossa resposta a um ataque terrorista deveria ser travar guerra contra um
regime que, por mais vil fosse, nada tinha a ver com aquele ataque.
Algumas
vozes avisaram que estávamos cometendo um erro terrível; que o argumento em
favor da guerra era fraco, possivelmente fraudulento, e que, longe de render a
prometida vitória fácil, era muito provável que a empreitada terminasse com
sofrimento custoso. E os avisos foram acertados, é claro.
Ficamos
sabendo que não havia armas de destruição em massa; olhando em retrospecto,
ficou evidente que a administração Bush enganou a nação propositalmente para
conduzi-la à guerra.
E a
guerra --depois de ceifar milhares de vidas americanas e dezenas de milhares de
vidas iraquianas, depois de impor custos financeiros muitíssimo mais altos que
seus fomentadores tinham previsto-- deixou a América mais fraca, não mais
forte, e acabou por gerar um regime iraquiano que é mais próximo de Teerã que
de Washington.
Será que
nossa elite política e nossa mídia aprenderam com esta experiência? Não é o que
parece. O que realmente chamou a atenção no período que antecedeu a guerra foi
a ilusão de consenso.
Até hoje,
analistas que se equivocaram em suas previsões se desculpam, alegando que
"todo o mundo" pensava que havia argumentos sólidos em favor da
guerra. É claro que havia quem se opusesse à guerra, eles reconhecem --mas
essas pessoas estavam fora da maioria.
O
problema desse argumento é que ele era e é circular: ser favorável à guerra
virou parte da definição do que significava ter uma opinião majoritária.
Qualquer voz discordante, por mais qualificada fosse, era "ipso
facto" vista como sendo indigna de consideração.
Isso
acontecia nos círculos políticos e igualmente em boa parte da imprensa, que,
concretamente, tomou partido e juntou-se ao campo em favor da guerra.
Howard
Kurtz, da CNN, que na época trabalhava para o "Washington Post",
escreveu recentemente sobre como funcionava esse processo --como a reportagem
cética, por mais fundamentada fosse, era desencorajada e rejeitada.
"Artigos
que questionassem as provas ou os argumentos em favor da guerra frequentemente
eram minimizados, relegados às páginas menos lidas ou derrubados",
escreveu.
Um
fenômeno estreitamente associado a essa tomada de partido era uma reverência
exagerada e inapropriada pela autoridade. Apenas pessoas em cargos de poder
eram consideradas dignas de respeito.
Kurtz nos
revela, por exemplo, que o "Washington Post" derrubou um artigo sobre
dúvidas em relação à guerra escrito por seu próprio repórter sênior de defesa,
com o argumento de que o texto era baseado inteiramente em declarações de
oficiais militares na reserva e especialistas externos --"em outras
palavras, pessoas com independência suficiente para questionarem os argumentos
em favor da guerra".
Tudo
considerado, foi uma lição objetiva sobre os perigos do pensamento de grupo,
uma demonstração de como é importante ouvir vozes céticas e diferenciar
reportagem de defesa pública de uma proposta.
Mas, como
eu disse, parece que a lição não foi aprendida. Considere, como prova disso, a
obsessão com o déficit que domina nosso cenário político nos últimos três anos.
Não quero
levar a analogia longe demais. Uma política econômica equivocada não é o
equivalente moral a uma guerra travada sob pretextos falsos, e, embora as
previsões dos críticos do déficit tenham se mostrado erradas repetidas vezes,
não houve nenhum fato tão decisivo ou tão chocante como o fato de não terem
sido encontradas armas de destruição em massa.
O melhor
de tudo é que, hoje, quem discorda da visão dominante não opera num clima de ameaça,
com a impressão de que levantar dúvidas pode resultar em consequências pessoais
e profissionais devastadoras, clima esse tão onipresente em 2002 e 2003 (quem
se lembra da campanha de ódio contra o grupo Dixie Chicks?).
Mas hoje,
assim como na época, temos a ilusão do consenso, uma ilusão baseada num
processo em que qualquer pessoa que questione a narrativa preferida é
imediatamente marginalizada, por mais fortes sejam suas credenciais.
E agora,
assim como na época, a imprensa com frequência parece ter tomado partido. Chama
a atenção especialmente a frequência com que afirmações questionáveis são
apresentadas como se fossem fatos.
Quantas
vezes, por exemplo, você já não viu artigos na imprensa simplesmente afirmando
que os Estados Unidos têm uma "crise de dívida", embora muitos
economistas argumentem que o país não enfrenta crise de dívida nenhuma?
Na
realidade, de algumas maneiras a linha que separa notícias e opinião ficou
ainda mais confusa com relação a questões fiscais do que foi durante a marcha
para a guerra. Como observou no mês passado Ezra Klein, do "Post",
parece que "as normas de neutralidade jornalística não se aplicam quando o
tópico é o deficit."
O que
deveríamos ter aprendido com a debacle do Iraque é que sempre devemos ser céticos
e nunca devemos confiar na suposta autoridade num assunto. Se você ouve que
"todo o mundo" defende uma política, quer seja uma guerra travada por
opção ou a austeridade fiscal, procure saber se "todo o mundo" foi
definido para excluir qualquer pessoa que manifeste opinião diferente.
E os
argumentos pró ou contra políticas devem ser avaliados segundo seus méritos, e
não segundo quem os expõe. Você se lembra de quando Colin Powell nos assegurou
que aquelas armas de destruição em massa iraquianas existiam?
Infelizmente,
como eu disse, parece que ainda não aprendemos aquelas lições. Será que vamos
aprender algum dia?
Tradução
de Clara Allain
Paul Krugman
é professor de Princeton e colunista do New York Times desde 1999, prêmio Nobel
de economia de 2008.
Fonte: Folha
de S. Paulo
Nenhum comentário:
Postar um comentário